sábado, 27 de novembro de 2010

Da minha precoce nostalgia

     Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de domingo,
me sentar na poltrona e, bebendo um cálice de Vinho do Porto, dizer à minha
neta:

- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado.
Tenho umas coisas pra te contar.

-Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões. E
agora, do alto dos meus 82 anos, minha alma é o que me resta de saudável e
forte.
Por isso, vou colocar mais ou menos assim:

É preciso coragem para ser feliz. Seja valente.
Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus
olhos também irão.

E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação.
Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas
escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai depender só de
você.

Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim. Aproveite sua
casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália. Experimente,
mude, corte os cabelos. Ame. Não corra o risco de envelhecer dizendo "ah, se
eu tivesse feito..."

Tenha uma vida rica de vida.
Viva romances de cinema, contos de fadas e casos de novela.
Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.
E tome conta sempre da sua reputação, ela é um bem inestimável. Porque sim,
as pessoas comentam, reparam, e se você der chance elas inventam também
detalhes desnecessários.

Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status.
A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém parecido com
você, mas isso pode ser um saco!
Prefira a recomendação da natureza, que com a justificativa de otimizar os
genes na reprodução, sugere que você procure alguém diferente de você. Mas
para ter sucesso nessa questão, acredite no olfato e desconfie da visão. É o
seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.

Faça do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus instrumentos
de criação. Leia.
Pinte, desenhe, escreva. E por favor, dance, dance, dance até o fim, se não
por você, o faça por mim.

Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre
fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.

Cultive os amigos. Eles são a natureza ao nosso favor e uma das formas mais
raras de amor.
Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é
que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.

Era só isso minha querida. Agora é a sua vez.
Por favor, encha mais uma vez minha taça e me conte:
Como vai você?

                                                                                                   (extraído do texto de Maria Sanz Martins)